Carta aberta dos escritores de língua portuguesa

Manifesto contra o racismo, a xenofobia e o populismo e em defesa da cultura e de uma sociedade livre e plural.

Nós, escritores portugueses e de língua portuguesa, estamos, por ofício, cientes do poder da palavra. E do poder da sua omissao também. Conhecemos os custos de dar palco ao que, em circunstâncias normais, nao mereceria uma nota de rodapé.

Leia o manifesto na íntegra logo abaixo:


Nós, escritores portugueses e de língua portuguesa, estamos, por ofício, cientes do poder da palavra. E do poder da sua omissão também. Conhecemos os custos de dar palco ao que, em circunstâncias normais, não mereceria uma nota de rodapé. Pondo em cena aquilo que não é de cena – aquilo que é, e não só etimologicamente, obsceno.


Preferimos correr esse risco face às circunstâncias vividas em Portugal, que consideramos graves e inquietantes, nos domínios do racismo, do populismo, da xenofobia, da homofobia, das emoções induzidas, da confusão destas com ideias e, em geral, de tudo aquilo que de mais repugnante pode emergir de uma sociedade em crise e em estado de medo.


Temos de reagir antes que seja tarde. E usar as palavras contra o insidioso ataque à democracia, ao multiculturalismo, à justiça social, à tolerância, à inclusão, à igualdade entre géneros, à liberdade de expressão e ao debate aberto.


Exigimos compromissos políticos que detenham a escalada do populismo, da violência, da xenofobia – de todos esses reflexos primitivos, retrógrados, obscurantistas, destrutivos e abjectos. Tais são as nossas grandes riquezas: a diversidade e a tolerância. Como o expressa a língua portuguesa, feita de aglutinação, inclusão e aceitação da diferença.


Quem gosta de Portugal jamais diz «Vão!», antes diz «Venham!».


É preciso tomar consciência de que as ameaças que ora rastejam propiciam uma quebra irreparável dos valores humanistas, da solidariedade e do mútuo apoio – valores laborais e de igualdade de direitos constitucionais à saúde, à educação, ao emprego, à justiça, à cultura.


Cultura e literatura não florescem nestes tempos sufocantes, em que a terrível crise humanitária dos refugiados, nos deploráveis campos às portas da Europa, e a ameaça ecológica e ambiental, à escala planetária, são banalizadas nos noticiários. E ao que vem de trás ainda se junta o que se seguirá à pandemia da covid-19: o alastramento do desemprego e da pobreza, pasto fértil para demagogias, teses anti-imigração, racismos e extremas-direitas.


Não podemos olhar para o lado nem continuar calados, sob pena de emudecermos. Por tudo isto, nós, escritores portugueses e de língua portuguesa, assumimos o compromisso de jamais participarmos em eventos, conferências e/ou festivais conotados – seja de que maneira for – com ideias que colidam com os princípios da tolerância e da dignidade humana.


A todos os cidadãos portugueses, à sociedade civil, aos professores das escolas e das universidades, apelamos a que se distanciem de projectos e movimentos antidemocráticos e ajudem na consciencialização das novas gerações para a urgência dos valores humanistas e para os riscos das extremas-direitas; aos órgãos de justiça, que investiguem, processem e condenem os interesses económico-financeiros que se servem dos novos populismos para, a coberto da raiva e da intolerância, acentuarem as desigualdades de que sempre se sustentaram; às autoridades policiais e aos seus agentes, que se abstenham de condescender com movimentos e acções promotores da exclusão, da discriminação e da violência; à comunicação social, que assuma com veemência o seu papel de contraditório e de defesa da verdade; aos partidos políticos, que sejam capazes de recuperar os princípios esquecidos no decurso do jogo partidário de vocação eleitoral; ao Presidente da República, à Assembleia da República e ao Governo, que exerçam um escrutínio rigoroso da constitucionalidade e assegurem que o fascismo não passará.


Na certeza de que, como sempre nos mostrou a História, quem adormece em democracia acorda em ditadura,


Assinam o manifesto:


Adélia Carvalho

Adriana Lisboa

Afonso Borges

Afonso Cruz

Alexandra Lucas Coelho

Alexandre Andrade

Alice Vieira

Almeida Faria

Álvaro Laborinho Lúcio

Álvaro Magalhães

Amosse Mucavele

Ana Bárbara Pedrosa

Ana Cristina Silva

Ana Luísa Amaral

Ana Margarida de Carvalho

Ana Marques

Ana Pessoa

Ana Saldanha

Ana Saragoça

André de Leones

Andréa del Fuego

Andrea Zamorano

Andreia Azevedo Moreira

António Borges Coelho

António Cabrita

António Ladeira

António Mota

António Tavares

Bernardo Carvalho

Carlos Campaniço

Carlos Nogueira

Carlos Tê

Carlos Vale Ferraz

Catarina Santiago Costa

Catarina Sobral

Chico Buarque

Chissana M. Magalhães

Cláudia Lucas Chéu

Conceição Lima

Cristina Drios

David Machado

Diniz Borges

Domingos Lobo

Eileen A. Barbosa

Elsa Caetano

Eric Nepomuceno

Evandro Affonso Ferreira

Fabrício Corsaletti

Filinto Elísio

Filipa Martins

Francisco José Viegas

Francisco Resende

Fundação José Saramago

Gabriela Silva

Gonçalo Cadilhe

Gregório Duvivier

Helder Macedo

Helena Vasconcelos

Hélia Correia

Henrique Manuel Bento Fialho

Hugo Gonçalves

Inês Pedrosa

Isabel Minhós Martins

Isabel Olivença

Isabel Rio Novo

Isabel Zambujal

Isabela Figueiredo

Itamar Vieira Júnior

Jacinto Lucas Pires

Jaime Rocha

Jamil Chade

Joana Bértholo

Joana M. Lopes

João Cezar de Castro Rocha

João de Melo

João Paulo Cotrim

João Paulo Cuenca

João Pedro Porto

João Pinto Coelho

João Ricardo Pedro

João Tordo

Joel Neto

Jorge Serafim

José Anjos

José Carlos Vasconcelos

José Eduardo Agualusa

José Fanha

José G. Neres

José Jorge Letria (escritor e presidente da SPA)

José Luís Peixoto

José Manuel Mendes

José Mário Silva

José Pinto

Juca Kfouri

Julián Fuks

Júlio Machado Vaz

Leonor Sampaio Silva

Lídia Jorge

Lúcia Bettencourt

Lucílio Manjate

Lucrecia Zappi

Luís Almeida Martins

Luís Carlos Patraquim

Luís Carmelo

Luís Corredoura

Luís Fernando Veríssimo

Luís Quintais

Luís Rainha

Luísa Costa Gomes

Luísa Ducla Soares

Luíz Filipe Botelho

Luiz Ruffato

Madalena B. Neves

Madalena San-Bento

Manuel Alberto Valente

Manuel Jorge Marmelo

Manuela Costa Ribeiro

Márcia Balsas

Margarida Fonseca Santos

Margarida Vale de Gato

Maria do Rosário Pedreira

Maria Manuel Viana

Maria Valéria Rezende

Mário Cláudio

Mário de Carvalho

Mário Loff

Marta Bernardes

Mary del Priore

Mia Couto

Miguel Real

Miguel-Manso

Milton Hatoum

Mónia Camacho

Nara Vidal

Nazir Ahmed Can

Nélida Piñon

Nilma Lacerda

Noemi Jaffe

Nuno Camarneiro

Olga Santos

Olinda Beja

Ondjaki

Onésimo Teotónio Almeida

Patrícia Melo

Patrícia Portela

Patrícia Reis

Paula de Sousa Lima

Paulo Kellerman

Paulo M. Morais

Paulo Moura

Paulo Scott

Pedro Loureiro

Pedro Meira Monteiro

Pedro Pereira Lopes

Pedro Vieira

Pepetela

Possidónio Cachapa

Raquel Varela

Renato Filipe Cardoso

Ricardo Fonseca Mota

Ricardo Ramos Filho

Richard Zimler

Rita Ferro

Rita Taborda Duarte

Rodrigo Guedes de Carvalho

Rosa Freire D'Aguiar

Rui Cardoso Martins

Rui de Almeida Paiva

Rui Lage

Rui Manuel Amaral

Rui Zink

Ruth Manus

Sandro William Junqueira

Sérgio Godinho

Sérgio Nazar David

Sidney Rocha 

Susana Moreira Marques

Tânia Ganho

Tatiana Salem Levy

Teolinda Gersão

Teresa Rita Lopes

Tiago Rodrigues

Tiago Salazar

Tom Farias

Valter Hugo Mãe

Vanda R. Rodrigues

Vera Duarte